Notícias do Digital — Sherlocking: quando um update mata seu SaaS
O caso Moment vs Screen Time e a lição dura para quem constrói SaaS em cima de plataformas: wrapper não é produto.
Tem ideia de SaaS que parece boa demais?
Cuidado: às vezes ela não morre por concorrência.
Ela morre por atualização de software.
A notícia do dia
Durante anos, o app Moment ajudou usuários de iPhone a entender quanto tempo passavam no celular.
Era simples, útil e resolvia um problema real.
Até que a Apple lançou o Screen Time, nativo no iOS — e o core do produto virou uma feature do sistema operacional.
No Vale do Silício, isso tem nome.
O que é Sherlocking (sem romantizar)
“Sherlocking” é quando uma plataforma lança nativamente uma funcionalidade que antes era feita por apps ou startups independentes.
Não é sobre “roubar código”. É sobre absorver valor.
Quando a feature vira nativa:
- ela vem instalada
- é gratuita
- tem acesso profundo ao sistema
- tem distribuição instantânea
O app externo passa a competir com o próprio sistema.
O caso Moment → Screen Time
Antes:
- baixar um app
- conceder permissões
- abrir outro dashboard
- lembrar de usar
Depois do Screen Time:
- já vem no iPhone
- usa dados nativos
- integra com o sistema
- resolve 80% do problema
Quando o nativo resolve “o suficiente”, o usuário não instala o extra.
Não porque o app é ruim. Mas porque não é mais necessário.
O erro não é o mercado — é o modelo
Aqui entra a parte que dói.
Se o seu SaaS:
- só lê dados da plataforma
- só organiza o que ela já sabe
- só entrega uma visualização melhor
Você não tem um produto. Você tem uma feature terceirizada.
Esse tipo de SaaS é chamado de Wrapper.
Wrapper vs Produto (diferença prática)
Wrapper
- depende da API de alguém
- não tem dados próprios
- não toma decisões
- não aprende com o uso
É uma interface bonita em cima de algo que não é seu.
Produto
- acumula dados exclusivos
- constrói histórico
- cria regras próprias
- aprende padrões do usuário
- toma decisão (ou orienta decisão)
A “mão invisível” da tecnologia sempre absorve o que é útil para a massa. O que sobrevive é o que não pode ser absorvido facilmente.
Onde está o Moat (o fosso)
Código é copiável. Feature é copiável. Interface é copiável.
O que não é:
Dados proprietários
Dados que só existem porque o usuário usa o seu sistema, do seu jeito:
- histórico
- preferências
- padrões
- contexto
Marca
Confiança, linguagem, estilo. Usuários não seguem produtos — seguem referências.
Comunidade
Feedback recorrente vira roadmap. Pedido vira funcionalidade. Uso real vira diferencial.
Moat não é tecnologia. Moat é acúmulo ao longo do tempo.
Ação prática (o que eu faria hoje)
Se você está construindo um SaaS:
- Liste tudo que depende de uma API externa
- Marque o que poderia virar nativo amanhã
- Identifique onde você gera dados próprios
- Transforme uso em histórico
- Transforme histórico em decisão
Construa processos, não só requests.
Checklist rápido
- [ ] Meu produto funciona sem a API por algum tempo?
- [ ] Eu acumulo dados exclusivos?
- [ ] Meu usuário perderia algo se saísse?
- [ ] Existe aprendizado contínuo?
- [ ] Isso é produto ou só interface?
Se doeu, ótimo.
É melhor descobrir agora do que no próximo update.
Fontes (links)
- Apple — Screen Time (overview): https://support.apple.com/guide/iphone/screen-time-iphbfa595995/ios
- Moment App (site): https://inthemoment.io/
- Artigo sobre Sherlocking e plataformas: https://stratechery.com/2017/platforms-and-sherlocking/
Se você quer mais conteúdo assim, eu mostro como transformar um wrapper de API em produto real usando dados, workflow e histórico.
Veja a série completa
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